terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Responsabilidade social individual e ativismo social: eu por quem?

Desde os antigos sistemas de organização da sociedade, o estado se coloca como responsável pelas questões sociais, não se limitando ao controle (polícia, soldados, fiscais etc) do que foge ao acordado no âmbito das questões privadas. Desta forma, esse “estado” - em determinado contexto do tempo - sempre fez questão, de uma forma ou de outra, mas oportunamente, de explorar os aparelhos que organizam ou estruturam o modelo social (religião, escola, meios de comunicação etc). O tempo, posteriormente provado por Einstein na teoria da relatividade, é o campo da nossa experiência social, um lugar ou palco da historiografia crescente e, para iniciarmos a nossa reflexão temática, ignoraremos as outras “peças teatrais” históricas que precederam o cenário que vimos hoje, imaginando o estado pós-moderno como um corpo poderoso e patrocinado por nós mesmos, conjuntamente com as companhias privadas entre outras organizações não governamentais.

A primeira pergunta que se faz é simples, mas pode levar a uma dimensão filosófica interminável se viajarmos na ressignificância de paradigmas concebidos que não sofreram crise1: o que é responsabilidade social e ambiental? Responsabilidade social e ambiental (RSA) é um conjunto de ações preventivas, mitigadoras ou de correção em caráter social ou ambiental que pelo fato de ser “responsabilidade” pressupõe que há compromisso e este pode ser assumido por qualquer agente (estado, companhias, ONGs etc) na forma institucionalizada. Você deve se perguntar: mas uma ONG, por exemplo, não pode fazer alguma coisa que não tenha compromisso ou responsabilidade de fazer sempre, como doação de alimentos para vítimas de terremoto? A resposta é simples: sim! Mas isso não se trata de responsabilidade social e sim uma ação (ou atividade) solidária que quem ganha é a sociedade. Você poderia argumentar: mas e se o porquê de existência da ONGs for atender às vítimas de terremotos que acontecem? Aí sim, temos uma ONG atuando com responsabilidade (compromisso) com o que propôs. Então vem uma nova pergunta: e a prefeitura que ajuda essas vítimas, é responsável? Pode ser que sim, se o terremoto for oriundo de questões que caracterizam a obrigação legal formalizada (pergunte-se: qual é o papel dela em relação a isso?).

1A crise de um paradigma se deve, principalmente, aos constantes debates científicos no ramo das exatas, mas pode ocorrer em qualquer linha científica cujo significado não supre as necessidades de um contexto.

Diante da significação de responsabilidade nos contextos social e ambiental, há o nascimento de outros termos derivados que podemos conhecer como subdivisão da responsabilidade ou classificação da matriz de atuação. Destaco aqui os seguintes termos:

Termo

Sujeito

Escopo

Responsabilidade Social Empresarial (RSE)

As companhias, fundações, comércio etc.

Prevenir, corrigir ou amenizar impactos causados pelo processo produtivo de uma empresa (privada ou pública), com aplicação de projetos, programas, campanhas etc.

Responsabilidade Social pela própria existência

Organizações não governamentais

Prevenir, corrigir ou amenizar impactos causados por fontes diversas (empresa, estado, exploração, falta de informação etc) monitorando, denunciando e avaliando em determinado período.

Outros organismos (formais ou informais) constituídos

Responsabilidade social individual

Indivíduo no papel de voluntário em propostas corporativas, ONGs, comunitárias etc.

Ser colaborador para uma causa em que se somam as forças individuais.

É o indivíduo visto como voluntário de um programa de responsabilidade da sua empresa (RSE) ou outras organizações.

Indivíduo ao acatar questões legais

Se estabelece aí uma responsabilidade em condição “sine qua non”, onde há obrigatoriedade e daí a responsabilidade que, se facultada, acarreta em sansões legais.

Participação como voluntário em acordos orgânicos comunitários (ou intercomunitários) e até mesmo com envolvimento de empresas voluntárias, como companhia de lixo urbano, saneamento etc.

O indivíduo aí é um voluntário que assume a responsabilidade individual para um papel acordado com sua comunidade ou empresa prestadora de serviço público.

A partir do que fora visto aqui, é possível que um indivíduo, com suas próprias ideias – por si mesmo motivado – tenha ações sociais? Veja o que diz o sociólogo colombiano José Bernardo Toro: “o agir ou não agir de cada um, contribui para a formação e consolidação da ordem em que vivemos”. Observaram como fica clara a importância de exercitar a nossa Responsabilidade Social Individual (RSI) para nos tornarmos um “ser humano melhor”.

Com esse constante exercício, o indivíduo passa assumir, segundo Maria Elena Pereira Johannpeter: “uma postura de construtor e colaborador para uma causa comum. Uma tomada de decisão ética, em que a consciência mobilizada age no sentido de trabalhar valores internos que despertem na pessoa o seu potencial como agente transformador”.

Ora, evidente então que o indivíduo que participa de ações sociais é um responsável social individual e essa participação pode levar ao fortalecimento de sua consciência individual não institucionalizada, tornando-o um ativista social, enxergando oportunidades para ser solidário com o mundo, de uma forma geral. Ser um ativista sem ter o compromisso externo institucionalizado (a responsabilidade) é o que poderá transformar o mundo sem necessidades de políticas afirmativas (leis, fiscalização, penalidades etc), sobrando tempo para que o estado limite-se à promoção de um ambiente favorável e estimulante para todos, com condições iguais, rompendo o paradigma da dicotomia “lei e organização” como geradoras exclusivas das ações sociais. Ser um ativista social frequente é assumir para si, a “responsabilidade” subjetiva (eu por mim mesmo) e não controlada externamente, que – portanto - não pode ser chamada de responsabilidade social, porque compõe o ser diante das suas preferências e valores não homogêneos e não institucionalizados, já que a responsabilidade assumida pela pessoa, diante da sua própria e particular subjetividade, é um compromisso consigo mesma.

Entretanto, para o bem da nossa reflexão, é do ativista que nascem as ideias. Um ativista desencadeia seus valores em ações e, ao desenvolver a grandeza destas ações – naturalmente ou por um outro fator externo (crescimento da demanda, necessidade de formalização legal etc) – as ideias se canalizam em foco, escopo ou objetivo para que se institucionalizem. Ora, mas é possível que na passividade (por motivos quaisquer) haja um ativista também, porém sem ações, mas concebendo as suas ideias como uma forma de atividade social (ou ambiental).

Para o mundo, portanto, vale refletir a mudança social gerada de forma contagiante, através de uma corrente interminável do bem, já que de experiências como voluntário pode nascer no sujeito um ativista sensibilizado por uma ou mais causas e, dessa forma, uma ideia poderá também surgir e se institucionalizar em um programa social (projeto, campanha etc) que venha a recrutar outros voluntários.


Referências bibliográficas

Brasil, Responsabilidade Social Individual
http://www.tribosparceirosvoluntarios.org.br/Lists/Glossrio/DispForm.aspx?ID=25
Acesso em 2 de julho de 2010.

Brasil, Universidade Positivo, Entrevista com Eliziane Gorniak (HSBC)
http://www.up.com.br/up/conteudo/840/entrevista-com-eliziane-gorniak.aspx
Acesso em 10 de julho de 2010

Brasil, Secretaria da Justiça e Desenvolvimento Social, Entrevista Maria E. P. Johannpeter
http://www.stcas.rs.gov.br/portal/index.php?menu=artigo_viz&cod_noticia=2994
Acesso em 8 de agosto de 2010.


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